Nos últimos tempos, tenho mergulhado em uma reflexão profunda sobre o estado de presença, não como um conceito abstrato, mas como uma prática viva que pulsa no cotidiano. Estar presente transcende a técnica terapêutica; é, em essência, a forma como escolhemos nos relacionar com o próprio ser e com o universo que nos cerca.
Buscar a coerência entre o ser e o estar exige um compromisso delicado: o de acolher, com honestidade e ternura, cada sensação, percepção e intuição que floresce a cada instante. Contudo, essa presença não é um destino onde se chega e se repousa de forma automática. É, antes, um exercício de zelo diário, uma dança sutil entre a dispersão e o retorno ao centro.
O desafio de permanecer no corpo
Manter o ancoramento no próprio corpo tem se revelado um desafio constante. Vivemos imersos em um fluxo incessante de notícias, conflitos e tragédias que batem à nossa porta digital todos os dias. Como seres sensíveis, a indiferença não é um caminho, sentimos o peso do mundo.
O desafio reside em testemunhar essas realidades sem permitir que elas dissipem nossa regulação emocional. É preciso aprender a transitar pela dor do mundo preservando, no íntimo, um santuário de quietude e equilíbrio.
Uma “fresta de paz”
Cultivar essa “fresta de paz” interna é o que sustenta tanto a vida pessoal quanto a prática clínica. A presença que oferecemos ao outro no setting terapêutico não nasce do vazio; ela é o transbordamento da presença que aprendemos, com paciência, a sustentar em nós mesmos.
Afinal, para segurar a mão de alguém em meio à tempestade, precisamos primeiro saber onde nossos próprios pés tocam o chão.
“A mente se aquieta na presença daquele que está estabelecido na paz.”
Anandamayi Ma
“A mente se aquieta na presença daquele que está estabelecido na paz.” palavras da grande mãe indiana Anandamayi Ma, que me inspira e, ao mesmo tempo, me desafia profundamente. Aquietar a mente torna-se possível quando estamos estabelecidos em um estado interno de paz. Em outras palavras, quando deixamos de viver exclusivamente a partir das dores do passado e passamos a reconhecer, sensorialmente, o lugar onde nossos pés realmente pisam no instante presente. Nesse espaço de presença, compreendemos gradualmente que não somos vítimas das nossas histórias, mas responsáveis pelo nosso processo de transformação. Essa presença se assemelha ao estado meditativo, no qual a mente se torna mais silenciosa e o corpo passa a ser um ponto de ancora.
Nesse processo, o terapeuta também percorre sua própria presença, buscando a sintonia fina com sua essência. Habitar o instante significa despertar os sentidos para as expressões do outro, captando tanto a sonoridade das palavras quanto o silêncio das emoções que emergem no campo.
É, em essência, uma dança com o outro.
Nesse fluxo cuidadoso, terapeuta e paciente movem-se em um compasso compartilhado. Não se trata apenas de técnica, mas de um encontro rítmico onde o acolhimento e a segurança se tornam o solo firme para a transformação. Estar presente é, acima de tudo, oferecer ao outro o espaço seguro de ser ouvido em sua totalidade.
Quando estamos conectados ao corpo, com os pés firmemente apoiados no chão, favorecemos a regulação do nosso sistema nervoso autônomo. Sentimos, literalmente, o chão como suporte, o que nos ajuda a não colapsar diante da dor de antigas “feridas”.
Nesse contexto seguro, torna-se possível:
- Acessar emoções e memórias da infância;
- Reconhecer crenças limitantes formadas ao longo da vida: de se sentir insuficiente ou de não ser amado.
Essas crenças costumam acompanhar experiências traumáticas sob a forma de narrativas que construímos sobre nós mesmos. Muitas vezes, elas surgem de comentários ou interpretações que ouvimos na infância e que, por diferentes razões, internalizamos como verdades absolutas.
A integração e o sentir
Portanto, é no estado de presença que permitimos que as diferentes partes de nós sejam escutadas, acolhidas e gentilmente integradas. Ao mesmo tempo, aprendemos a nos distanciar das preocupações e dos medos projetados sobre um futuro incerto.
A liberação do trauma emerge dessa presença consciente. O Compassionate Inquiry oferece ferramentas simples para que cada pessoa possa acessar seus próprios processos de cura, resgatando principalmente a capacidade essencial de Sentir.

Muito consistente e esclarecedora sua reflexão, Renata. Me fez bem experimentar pensar na possibilidade de me envolver menos a fim de me manter mais centrada ma minha própria coesão. Fez sentido para mim. Obrigada.
Super agradeço a sua presença!