Precisamos, urgentemente, falar sobre a violência que enfrentamos como mulheres. Uma violência tão enraizada no cotidiano que, muitas vezes, passa despercebida, naturalizada, silenciada e normalizada. À medida que nos aproximamos de 2026, é alarmante constatar que essa realidade não apenas persiste, como cresce.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2015 e 2020, o Brasil registrou, em média, 13 mortes diárias de mulheres por feminicídio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também alerta que, mundialmente, cerca de 50 mil mulheres perdem a vida todos os anos por essa violência alimentada pelo ódio. São números que revoltam, adoecem e chocam. A indignação atravessa nossos olhares, nossas relações e nosso modo de existir no mundo.
É insuportável admitir que assassinatos covardes ocorram por motivos tão fúteis, como se houvesse qualquer justificativa possível para tamanha barbárie. Infelizmente, ainda existem homens misóginos, consumidos por uma raiva doentia, que perderam completamente a noção de limite.
Essa realidade me atravessa também de forma íntima. Falo como mulher cisgênero, branca, que teve acesso aos estudos e alcançou independência financeira desde jovem. Reconheço que esse percurso foi, em muitos aspectos, facilitado pelo apoio financeiro da minha família, um suporte fundamental para a construção da minha segurança interna e para o desenvolvimento da minha carreira.
Ainda assim, mesmo com toda essa base, vivi por sete anos em um relacionamento marcado por dominação, manipulação e diferentes formas de abuso, emocional, psicológico e financeiro. Um ambiente que me adoeceu, fragilizou e me deixou sob constante ameaça física. A violência não começou de forma explícita, ela foi sutil, lenta e corrosiva. Foi minando minha autoestima aos poucos, até que eu me afastei de amigos, da família e da vida. Dominada pelo medo, perdi a minha voz.
Hoje, sei que aquilo não era amor, era aprisionamento. E as marcas daquele vínculo ainda reverberam na minha saúde e nas minhas relações afetivas. Peço apenas que não me julguem por ser psicóloga, eu também, em certos momentos, perpetuei a violência contra mim mesma. A formação não nos protege do ciclo da manipulação quando estamos emocionalmente envolvidas.
Quero compartilhar agora uma breve história inspirada no mito de Narciso e Eco.
Eco e Narciso formavam um casal que, aos olhos do mundo, parecia perfeito. Tinham profissões, uma casa e uma rotina organizada. Mas ninguém imaginava o que acontecia entre aquelas quatro paredes. Narciso sempre colocava suas próprias prioridades acima das de Eco. Ele não a escutava, mesmo sabendo que era ela quem sustentava a casa.
Aos poucos, Eco foi se exaurindo. Foi perdendo a voz, o tamanho e o espaço. Foi diminuindo até quase desaparecer. Um dia, Narciso a procurou. Mas era tarde demais. Ele já não conseguia vê-la, nem encontrá-la, pois ela havia perdido sua própria existência dentro daquela relação.
Em relações violentas, muitas vezes, o outro simplesmente deixa de existir. E, quando tenta se libertar, pode ser tarde demais, esmagado pela covardia de homens que não suportam a autonomia feminina.
Nós queremos que todas as mulheres tenham sua voz. Queremos viver livres. Caminhar seguras por todos os espaços. Existir em nossa autonomia e autenticidade. Queremos desfrutar da liberdade que, muitas vezes, é invejada por aqueles que não conhecem a verdadeira força que habita em nós.
Que possamos unir nossas vozes em um coro de esperança e resistência.
Essa é uma luta por todas as mulheres vivas.


Muito bom! 👏🏻👏🏻👏🏻
Importante esse relato que mistura seu relato pessoal e uma discussão mais coletiva. Parabéns pela coragem!